Muitas vezes ao buscarmos inspiração para as nossas montagens, nos deparamos com uma grande dificuldade, pois não possuimos um conhecimento mais aprofundado sobre ecossistemas e como as plantas aquáticas ocorrem na natureza. Esta seção vem de encontro a esta lacuna, e pretende mostrar um pouco do que estamos perdendo presos ao cotidiano das grandes cidades.
Em nossa primeira Expedição, Ronaldo Hilgert nos apresenta às Dunas Costeiras do Rio Grande do Sul através de seu texto envolvente e de suas belíssimas fotos, que aguçam nossos sentidos e nos transportam diretamente para estas maravilhosas paisagens. Ao final da leitura estamos certos que muitos estarão preparando a mochila, calçando as botas e planejando sua próxima Expedição.
Expedição às Dunas Costeiras do Rio Grande do Sul
Nesta primeira parte darei uma visão geral do que é um sistema de dunas costeiras, que abriga numerosas lagoas, e a descrição simplificada, mas precisa, de uma espécie de Potamogeton do local, gênero dito como taxonomicamente difícil.
° Dunas Costeiras
Dunas são barreiras dinâmicas contra a ação de ondas e tempestades, de solo pobre e em constante movimentação, que proporcionam ambientes diversificados e flora rica em espécies. Sua topografia irregular permite o surgimento de pequenas lagoas entre as partes baixas, as mais próximas ao mar geralmente recentes e de vida curta, e mais distante um pouco, com menor influencia marinha e solo mais estabilizado, as que tendem a “envelhecer” formando ambientes normalmente denominados de brejos.
A lagoa da foto nº 1 há cerca de um ano não existia. Exatamente no carnaval do ano passado, após uma ressaca que cobria completamente o local, ocorreu uma grande erosão formando uma baixada inicialmente alagada pela água do mar. Passado um ano, com as margens estabilizadas pela vegetação, o que antes era pura água do mar passou a ser o que eu chamo de “quase doce” ou “pouco salobro”, e como mágica, neste curto espaço de tempo, surgiram no local pelo menos 5 espécies de plantas aquáticas!
Na foto nº 2 vemos as principais responsáveis pelo surgimento das plantas. No caso específico da Potamogeton que será mostrada adiante, quase certeza que tenha vindo nos excrementos destas aves, já que diversas fontes citam seus frutos como valioso alimento para aves.
Potamogeton
Gênero de plantas exclusivamente aquáticas, com cerca de 69 espécies, possui distribuição cosmopolita. A maioria, 32 espécies, é encontrada na América do Norte temperada. Na América do Sul a maior concentração, cerca de 13 espécies, está na Argentina. No Brasil, até o momento, o Rio Grande do Sul é o estado que apresenta a maior diversidade de espécies, 9, que pode ser explicado por diferentes fatores, como clima temperado, influência da flora Argentina e Uruguaia e pela riqueza em corpos d’água. Verifica-se também, que as espécies localizadas em regiões tropicais, como América Central, geralmente estão confinadas às águas frias das altas elevações.
Potamogeton pusillus
Provavelmente esta seja a espécie de maior distribuição, ocorrendo na Europa, África, América do Norte e do Sul. No Brasil, encontrada na Amazônia, Pantanal e nos estados de Alagoas, São Paulo, Santa Catarina, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Habita águas doces ou salobras de pouca ou nenhuma correnteza, transparentes ou turvas. No RS floresce de setembro a março frutificando no mesmo período. Proporcionam excelente proteção para pequenos invertebrados ou peixes e suas sementes são apreciadas por diversas espécies de pássaros.
A identificação em campo:
A primeira coisa que se procura descobrir é se a planta também possui folhas emersas (de dois tipos) ou apenas submersas, assim boa parte das espécies será descartada. Analisa-se também o tamanho dos entrenós, comprimento das folhas, as estípulas se são rodeando o caule ou presas às folhas, diâmetro do caule, etc, mas no caso da P. pusillus a verificação de glândulas vermelhas nos nós, em forma de anel, já a denuncia. Mas cuidado, eventualmente P. gayi pode apresentar o mesmo tipo de estrutura!
P. pusillus e P. gayi são o tempo todo confundidas (até mesmo com P. polygonus), já que vegetativamente se parecem iguais (incluindo a presença de glândulas vermelhas), entretanto, a dimensão das espigas, número de flores e principalmente dimensão dos frutos, são definitivos para a distinção entre as espécies:
P. pusillus: Frutos com 1,6-2,7 mm de comprimento.
P. gayi: Frutos com 3,8 – 5,4 mm de comprimento.
Em 2001, Rodrigo Schütz Rodrigues, orientado por Bruno Edgar Irgang (por unanimidade considerado o “pai” das macrófitas aquáticas no Brasil), ambos da Ufrgs, publicou um excelente trabalho de mestrado com belíssimas ilustrações sobre Potamogetonaceae no Rio Grande do Sul, que foi o que me motivou a dedicar tanto espaço para a família. No trabalho, cada uma das 9 espécies encontradas no estado são tratadas de forma detalhada, uma verdadeira mão na roda para naturalistas apressados como eu. Segundo os pesquisadores, as espécies: P. ferrugineus e P. spirilliformis, parecem ter distribuição exclusiva ao Rio Grande do Sul, P. pectinatus e P. pusillus, espécies amplamente distribuídas no mundo, P. illinoensis, espécie americana que se estende do Canadá ao Sul do Brasil e Argentina, e as demais espécies, P. gayi, P. montevidensis, P. polygonus e P.ulei, restritas à América do Sul.
Chara sp.
Esta é de matar! Tenho certeza que muitos não acreditariam que se trata de uma alga. O mais interessante é que elas incorporam carbonato de cálcio e ficam “duras” como uma “rabo-de-raposa”, até pior, parece que espetam nos dedos! Se alguém precisar saber como diferenciar de Nitella sp. é só perguntar que eu tenho a resposta num livro.
Mayaca sp.
Não tem como saber se é M. fluviatilis ou M. sellowiana e só conheço uma pessoa no mundo que sabe distinguir, mas para isso, ele precisa de flores e sementes, fotografias não servem — a identificação é através das dimensões.
Echinodorus tenellus
° É planta que gosta de solos com baixa fertilidade! Sério gente, apesar do solo deste local estar bem estabilizado, quase 1 Km do mar, mais próximo do mar, na areia e mais nada, elas crescem muito bem! No livro “Guia Ilustrado da Vegetação Costeira no Extremo Sul do Brasil” fala o mesmo. Sei que é chato afirmar isso, mas fazer o que?
° As flores duram pouco, até às 17 horas, horário de verão.
° Só produzem flores quando estão emersas, diferente de outras do gênero que emitem longas hastes florais para fora d´água.
° Quando estão submersas se reproduzem com espantosa velocidade, por estolhos, da mesma maneira que ocorre nos aquários. Assim, onde há E. tenellus submersa não há uma ou duas, mas cerca de 500 por metro quadrado (contagem feita por mim), em tapetes densos, que chegam a cobrir completamente o fundo de uma lagoa.
° Quando submersas as folhas crescem até 10 cm. Emersas ficam pequenas, com cerca de 2,5 cm, e neste caso o mais fácil é localizar pelas flores.
° É a espécie de Echinodorus mais abundante no litoral gaúcho, sendo rara em regiões mais continentais, como minha cidade.
* Se alguém precisar mais alguma coisa sobre esta planta é só falar. Na minha vida já foram horas e mais horas só observando sua ecologia.
Utricularia sp.
Esta possui a menor flor que eu já vi. As folhas são lineares com cerca de 1 cm de altura. É a espécie mais freqüente no litoral e é encontrada junto de U. tricolor, esta em menor quantidade, na mesma proporção que já verifiquei em outras partes do estado.
Nem sempre se encontra uma novidade, várias vezes já voltei frustrado depois de horas de caminhada debaixo do sol escaldante. Às vezes eu chegava em casa tão cansado que depois do banho, que sempre é a primeira coisa a se fazer, me atirava no sofá e dormia ali mesmo.
Como todas às vezes eu andava sozinho, confesso que no mínimo em duas ocasiões me bateu um desespero tão forte que me fez parar tudo, foi quando me afastei demais do carro e pisei numa areia que começou a afundar comigo junto. Nunca tinha imaginado isso, era como estar pisando num colchão d’água, e era o que tinha debaixo dos pés, escondido por uma fina manta de plantas e areia, quase como uma lagoa congelada com a superfície de gelo a ponto de rachar...
Bom, então plantas só depois, agora uma pausa e pouco sobre a fauna ...
Adoro as cobras e quanto vejo uma, que sempre sai às presas quando me vê, vou atrás! Depois que ela cansa (geralmente eu canso primeiro) que tiro a foto!
Sobre peixes, eu costumo aprender muita coisa com eles. Indicam se o local vale a pena de ser explorado, fornecendo pistas sobre seu histórico geológico. Me ajudam a saber se a lagoa é sazonal ou não: algumas que aparentam ser não são porque possuem grande variedade de espécies estando completamente isoladas das outras. Às vezes tão pequenas, como dois ou três mil litros, muito longe do rio mais próximo, que me derreto quando encontro um peixinho! Significa que faz bons anos que não seca.
Naquela lagoa recente (primeiras fotos) a ictiofauna era exclusivamente de Jenynsia sp. Este, parecido com guppy, possui excepcional capacidade de migrar pelo mar: uma ressaca que inunda uma lagoa que tenha a espécie já é o bastante para que ele pegue umas ondas, se perca, e acabe voltando para a lagoa errada, começando assim, uma colonização, que será possível até mesmo por um peixe só, se for fêmea, pois elas estão sempre grávidas!
Já na lagoa da foto nº 3, tem lambari-de-rabo-amarelo, lambari-de-rabo-vermelho, tetra limão, Jenynsia, Phallocerus, ácara portalegrense e facetum, Geophagus brasiliensis, Crenicichla lepidota, muçum, ituí transparente, sarapó, góbios, traíras, e eventualmente filhotes de tainha. Boa parte já mostrei aqui na Era — a maioria das fotos de peixes que tenho são dela.
Então isto mostra que o local existe há décadas, que esta variedade toda não venho caminhando e que no passado houve a comunicação com a lagoa que fica uns 2,5 km ao oeste... muita coisa se pode imaginar, mas uma coisa é certa: eles precisaram de um corredor de passagem, que para algumas espécies pode ter sido até o mar, incluindo os ciclídeos, mas para todas não.
Aquelas dunas lá no fundo da foto são dunas frontais, e no caso, a única proteção para este ecossistema frágil. Algumas pessoas nem imaginam a importância delas, roubam areia e até mesmo chegam a gramar, como aconteceu recentemente no caso de um milionário famoso que se achava dono delas. Fora os jipeiros, que tenho nojo, nojo compartilhado por diversos amigos biólolgos, principalmente quando eles se dizem praticantes de um esporte ecológico.
Anagallis arvensis - Primulácea / não aquática
A vegetação nesta parte (ainda dunas frontais) é altamente especializada. Conseguir viver recebendo o borrifo do mar, sol escaldante, solo altamente poroso onde a água se perde na hora, temperaturas altíssimas durante o dia e baixíssimas durante a noite, acompanhado de flutuação na temperatura superficial do solo, sem falar na pobreza de nutrientes e constante movimentação da areia, não é mole. São poucas as espécies, várias suculentas, carnosas e a muitas podem servir de alimento no caso de algum aperto, apesar do gosto salgado. Quando provei eu estava acompanhado de quem sabia do que estava fazendo, tá?
Abraços a todos e nos vemos numa outra Expedição!
Ronaldo Hilgert
Galeria(s) de foto(s) relacionadas a este texto: